Todo início de ano — ou mesmo quando o ritmo finalmente volta ao normal — me surge a mesma pergunta: o que vale a pena estudar agora? Acredito que essa também seja uma dúvida recorrente para quem trabalha com qualidade de software. Para um QA em 2026, essa reflexão não é apenas comum, ela é estratégica.
Ao longo da minha atuação como QA, venho percebendo que o papel do profissional de qualidade mudou bastante. Não se trata mais apenas de encontrar bugs, mas de entender riscos, apoiar decisões, colaborar com o time e contribuir ativamente para a entrega de valor ao produto. Quando o QA é visto apenas como uma etapa final do ciclo de desenvolvimento, por desenvolvedores ou gestores, parte significativa desse potencial acaba sendo desperdiçada.
Essa percepção não surgiu do nada. Ela vem da prática diária, de estudos constantes e do acompanhamento de discussões na comunidade de QA. Se antes bastava conhecer testes manuais e algumas ferramentas, hoje o mercado exige um profissional muito mais completo, com visão técnica, sistêmica e colaborativa.
Não é sobre aprender tudo de uma vez, mas sobre seguir um caminho lógico de evolução, entendendo quais habilidades realmente constroem uma carreira sólida em Quality Assurance. Foi a partir dessa necessidade de organização — tanto pessoal quanto profissional — que este artigo começou a tomar forma.
Este texto propõe exatamente isso: um roteiro prático de aprendizado e evolução para QAs em 2026, baseado na minha experiência até aqui, em pesquisas recorrentes sobre o tema, em discussões da comunidade e em boas práticas amplamente consolidadas na literatura e no mercado.
Introdução
A área de Quality Assurance evoluiu junto com o próprio desenvolvimento de software. Metodologias ágeis, DevOps, integração contínua e automação mudaram completamente a forma como qualidade é pensada e aplicada.
Em 2026, o QA moderno atua como:
- Guardião da qualidade;
- Facilitador do processo;
- Parceiro técnico de desenvolvedores e produto;
- Profissional orientado a risco e valor de negócio.
Essa visão mais ampla exige organização no aprendizado. Não dá para estudar tudo ao mesmo tempo — e nem faz sentido. O caminho mais sustentável é evoluir em camadas, começando pelos fundamentos e avançando para especializações conforme a maturidade cresce. Assim, desenvolvi esse roteiro, ele não é uma regra fixa, mas um guia estratégico para QA para evoluir de forma consistente.
Fundamentação Teórica
1. Fundamentos de QA
Antes de pensar em automação, ferramentas ou frameworks, todo QA precisa dominar os fundamentos. É aqui que se constrói a base para tomar boas decisões ao longo de qualquer projeto.
Isso inclui:
Entender o que é Quality Assurance e Quality Control;
Conhecer os principais tipos de teste (funcional, regressão, smoke, exploratório, performance e segurança);
Saber criar casos de teste e cenários bem definidos;
Reportar bugs de forma clara, objetiva e rastreável;
Compreender o STLC (Software Testing Life Cycle) e sua relação com o SDLC (Software Development Life Cycle).
Se esse ponto ainda gera dúvidas, vale revisar o artigo “O que é QA (Quality Assurance)? Qual seu papel no time de desenvolvimento?” e também o “Guia Completo de Casos de Teste”, onde aprofundo esses conceitos na prática.
Esses fundamentos formam a base para decisões mais conscientes ao longo do projeto e estão amplamente descritos em materiais clássicos da área, como o ISTQB Foundation Level Syllabus e a obra The Art of Software Testing de Myers (MYERS, 2011).
2. Testes de Aplicações (Web, API e Mobile)
Em 2026, é praticamente impossível atuar em QA conhecendo apenas um tipo de aplicação. A necessidade de validar diferentes tipos de aplicações e camadas do sistema reforça a visão de qualidade como algo distribuído ao longo do ciclo de desenvolvimento, conforme discutido por Crispin e Gregory (2015) no contexto de testes ágeis.
- Testes Web: validação de fluxos, interfaces, regras de negócio e acessibilidade;
- Testes de API: validação de endpoints, status HTTP, contratos, payloads e lógica de negócio;
- Testes Mobile: compatibilidade entre dispositivos, UX, performance e uso de recursos.
Aqui, mais importante do que testar tudo é saber priorizar o que realmente importa. Esse é um ponto que vejo muitos QAs sofrerem no dia a dia.
Para se aprofundar nisso, recomendo o artigo “Como Priorizar Testes: Estratégias, Riscos e Tomada de Decisão em QA”, que complementa diretamente esse tópico.
3. Ferramentas de Gestão de Testes e Defeitos
Ferramentas não fazem o QA sozinho, mas organizam e potencializam o trabalho. Entre as mais comuns estão:
Jira, Trello ou Azure DevOps para gestão;
TestRail ou Xray para casos de teste;
Integração entre testes, bugs e requisitos.
O erro comum é achar que dominar a ferramenta é o objetivo final. Pressman (2010) reforça que processos e ferramentas só geram valor quando bem aplicados dentro de um contexto organizacional claro, algo que se reflete diretamente na forma como casos de teste e defeitos são gerenciados. Na prática, o diferencial está em usar essas ferramentas para gerar visibilidade, rastreabilidade e boa comunicação.
Esse tema se conecta diretamente com o artigo “Como Criar um Plano de Testes Eficiente”, onde explico como estruturar testes além da ferramenta.
4. Agilidade e DevOps
O QA em 2026 atua inserido em times ágeis e pipelines automatizados. Isso envolve:
Entender Scrum e Kanban (papéis, cerimônias e fluxo);
Aplicar conceitos de Shift Left Testing;
Participação ativa desde o refinemento até a entrega.
Qualidade deixa de ser uma fase final e passa a ser uma responsabilidade contínua do time. Essa visão está alinhada com os princípios de entrega contínua apresentados por Humble e Farley (2011), onde testes deixam de ser uma fase isolada e passam a integrar todo o fluxo de entrega de software.
5. Banco de Dados e Observabilidade
Mesmo sem ser especialista, o QA precisa entender dados para investigar problemas de forma mais eficiente:
SQL básico (SELECT, JOIN, INSERT, UPDATE);
Noções de bancos NoSQL;
Modelos de qualidade como o ISO/IEC 25010 também reforçam a importância de atributos não funcionais, como confiabilidade e manutenibilidade, que muitas vezes só são avaliados por meio de dados, logs e métricas internas.
Esse conhecimento ajuda a validar comportamentos que não aparecem na interface e acelera muito a identificação da causa raiz de falhas.
6. Soft Skills e Comunicação
Com a maturidade da área, habilidades comportamentais se tornaram tão importantes quanto técnicas:
Comunicação clara e objetiva;
Escrita de bugs sem conflitos;
Feedback construtivo;
Trabalho colaborativo com devs, produto e stakeholders.
Se reportar bugs ainda é um desafio, vale conferir o artigo “Como Reportar e Rastrear Bugs com Eficiência”, onde detalho boas práticas que uso no dia a dia.
7. Programação Básica
Programar deixou de ser opcional para quem quer crescer. Em 2026, espera-se que o QA entenda:
Lógica de programação;
Estruturas básicas (variáveis, loops, funções);
Linguagens comuns como Python, Java ou JavaScript.
Isso não significa virar desenvolvedor, mas sim ganhar autonomia, entender automações e se comunicar melhor com o time técnico.
8. Automação de Testes
Automação é uma consequência natural da maturidade em QA, não um ponto de partida. Inclui:
Web: Selenium, Cypress, Playwright;
API: Postman, RestAssured, Cypress;
Mobile: Appium, Detox.
Mais importante que a ferramenta é saber quando automatizar, o que automatizar e como manter testes confiáveis.
9. Integração e CI/CD
Testes automatizados ganham valor real quando integrados ao fluxo de entrega:
Execução de testes em pipelines;
Feedback rápido sobre falhas;
Apoio à entrega contínua com qualidade.
Ferramentas como Jenkins, GitHub Actions e GitLab CI/CD fazem parte desse cenário.
10. Especialização e Aprendizado Contínuo
Por fim, chega o momento de escolher caminhos de aprofundamento:
Testes de performance e segurança;
Qualidade em sistemas distribuídos;
Uso de IA e ML para análise de logs e testes;
Construção de portfólio e projetos práticos.
Aprender continuamente não é diferencial — é requisito para permanecer relevante.
Conclusão
A carreira de QA em 2026 não é sobre acumular ferramentas, mas sobre desenvolver competências ao longo do tempo. Acredito que um bom profissional de qualidade constrói sua base nos fundamentos, amplia seu contexto técnico, se comunica bem com o time e evolui continuamente junto com o mercado e o produto.
Este roteiro foi construído a partir da minha experiência prática como QA, dos estudos que venho realizando e do acompanhamento constante de materiais, livros e discussões da comunidade. Ele não pretende ser uma verdade absoluta, mas sim um guia honesto e estruturado para ajudar outros profissionais a organizarem seus próximos passos.
Espero que este conteúdo ajude a evitar frustrações comuns no início (ou no meio) da carreira, traga mais clareza sobre o que estudar e incentive um aprendizado mais consciente. Qualidade é uma jornada contínua — feita de aprendizado, prática e reflexão.
Se você tiver sugestões, discordâncias ou quiser complementar esse roteiro com a sua experiência, fico muito interessado em debater. A evolução do QA passa, necessariamente, pela troca entre quem está vivendo essa realidade no dia a dia.
Referências
ISTQB. Foundation Level Syllabus.
Myers, G. J. (2011). The Art of Software Testing.
Pressman, R. S. (2010). Engenharia de Software.
Crispin, L.; Gregory, J. (2015). Agile Testing.
Humble, J.; Farley, D. (2011). Continuous Delivery.
ISO/IEC 25010. Systems and Software Quality Models.
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